A fotografia pode registrar um momento.
Mas, para Celso Zaqueu, também pode ser uma forma de testar até onde a sua própria visão consegue chegar.

Existe uma diferença entre fotografar e construir uma imagem.
Não necessariamente na técnica. Mas na intenção.
Celso Zaqueu parece interessado justamente nesse espaço entre as duas coisas.
O fotógrafo moçambicano tem construído uma linguagem editorial marcada pela experimentação, pelo cuidado visual e, sobretudo, pela vontade de não repetir a fotografia anterior.
A lógica começa nos próprios trabalhos pessoais.
“Fazer sessões porque queres poder explorar certas ideias que talvez os teus clientes não trarão para ti”, explica.
Para Celso, esses projetos funcionam como um campo de experiência.
Uma oportunidade para testar ideias, experimentar abordagens e descobrir até onde consegue levar uma imagem sem depender de um briefing.
É também aí que a sua identidade começa a aparecer.
A curiosidade de tentar fazer uma fotografia que não se pareça com a anterior tornou-se parte do processo.
E existe uma outra ferramenta que ele considera fundamental: o próprio olhar.
Celso Zaqueu
“O teu olho e os teus gostos são as tuas maiores ferramentas.”
Talvez seja essa relação entre curiosidade e exigência que melhor explique o trabalho de Celso.
FOTOGRAFAR COMO EXERCÍCIO.
Recentemente, o fotógrafo desenvolveu um ensaio inspirado no universo da Adidas.
A marca, neste caso, não lhe entregou um briefing.
O projeto nasceu por iniciativa própria e faz parte de MARCADORIA, uma série em que Celso cria campanhas fictícias para marcas que admira, utilizando os recursos e as limitações disponíveis localmente.
A ideia é simples, mas a execução exige outra postura.
Quando decide criar algo como se fosse uma campanha para uma marca global, ele muda a forma de trabalhar.
O foco muda.
A responsabilidade aumenta.
A exigência também.
É uma espécie de exercício profissional criado pelo próprio fotógrafo.
Em vez de esperar pela oportunidade para descobrir se consegue entregar, Celso cria uma situação em que precisa provar isso a si mesmo.
No ensaio da Adidas, essa lógica encontrou uma narrativa própria.
A ideia partia da imagem de um “diamante bruto”: alguém com potencial, mas que precisa ser lapidado pelos desafios.
As luvas com cristais, as feridas no rosto e os restantes elementos visuais fazem parte dessa interpretação.
Não era simplesmente reproduzir a estética de uma marca.
Era descobrir como a sua própria linguagem poderia conversar com o universo dela.



UMA IMAGEM PRECISA TER UMA RAZÃO.
Para Celso, uma boa fotografia e uma imagem memorável não são necessariamente coisas diferentes.
Ambas podem eternizar um momento.
Ambas podem contar uma história.
Mas existe uma diferença importante na forma como ele encara o processo.
Cada sessão é uma oportunidade de dar forma a uma ideia.
De transformar pensamento em imagem.
E, quando isso acontece, a fotografia deixa de ser apenas aquilo que foi captado.
Passa a ser aquilo que foi pensado.
É também por isso que o fotógrafo não tenta aplicar a mesma fórmula a todos os projetos.
Nem todas as sessões precisam da mesma quantidade de narrativa, direção artística ou estética.
O equilíbrio depende do propósito.
Se o sentimento é o centro, a narrativa pode assumir maior importância.
Se o produto é o protagonista, os restantes elementos acompanham.
Primeiro vem a intenção.
Depois vem a linguagem necessária para chegar até ela.

PENSAR ALÉM DO MERCADO LOCAL.
Existe uma ambição maior por trás desse processo.
Celso acredita que a fotografia moçambicana precisa pensar de forma mais internacional.
Não apenas para exportar trabalho, mas para elevar o próprio padrão local.
A possibilidade de fotógrafos moçambicanos trabalharem com clientes estrangeiros e exporem fora do país faz parte da sua visão.
Mas ele coloca uma condição importante:
Primeiro precisamos melhorar para beneficiar mais a nós localmente.
A questão não é simplesmente chegar a outros mercados.
É produzir trabalho capaz de existir nesses mercados.
Trabalho que possa ser visto e apreciado em qualquer lugar, sem que a origem seja utilizada como desculpa para diminuir a exigência.
É uma mudança de perspectiva.
Não esperar que o mundo venha validar o trabalho.
Construir trabalho que possa entrar na conversa.
“AINDA ESTOU NOS 15%”
Talvez a afirmação mais reveladora de toda a conversa esteja no final.
Celso não parece olhar para o que já construiu como um ponto de chegada.
Pelo contrário.
“Eu só atingi 15% do que posso oferecer.”
A frase diz muito sobre o momento em que o fotógrafo se encontra.
Existe reconhecimento do caminho percorrido, mas também consciência da distância que ainda existe entre aquilo que já consegue fazer e aquilo que imagina ser capaz de fazer.
E talvez seja justamente essa distância que mantém a experimentação viva.
Porque, enquanto ainda houver coisas por testar, imagens por construir e linguagens por descobrir, a fotografia continua a ser mais do que trabalho.
Continua a ser pesquisa.
Celso Zaqueu parece estar nessa fase.
A construir.
A testar.
A lapidar.
E a descobrir, fotografia após fotografia, o que existe nesses outros 85%.
CULTURA EM CONSTRUÇÃO
A história de Celso não é apenas sobre fotografia.
É sobre uma geração de criativos moçambicanos que começa a criar os próprios exercícios, referências e padrões de trabalho antes mesmo de existirem oportunidades formais para isso.
- Criar uma campanha fictícia para uma marca global.
- Construir projetos pessoais.
- Testar uma linguagem.
- Pensar além do briefing.
- E usar as próprias limitações como parte do processo.
Talvez seja assim que uma indústria começa a ganhar maturidade:
Quando os seus criativos deixam de esperar pelo mercado para começar a trabalhar no nível do mercado que querem alcançar.
Celso ainda diz estar nos 15%.
Talvez seja justamente aí que a parte mais interessante da história começa.